quinta-feira, 10 de julho de 2008

Sete Palmos

Batata da Darsh: a história de um cara que chega tarde demais.

Na primeira carta levou apenas alguns dias para responder. Paletó gris no espaldar, charuto e tocos de vela acesos, escrevia com frenesi a matéria a ser publicada no La Tribune de domingo. O envelope de papel offset sobre a cerâmica à sua frente já estava lacrado e selado, endereçado ao Brasil. (Quanto tempo ao certo levou para postá-lo não se sabe.)
Aos poucos o enfeite encheu-se de cartas Vitória-Paris, sequer abertas. O aroma de rosas que exalavam obrigou-o a guardá-las dentro de uma caixa de papelão que ainda restara da mudança no seu quarto, aos pés da cama.
Tampouco se sabe se fora a constância das linhas que lhe entediara, ou se os compromissos de um colunista de sua estirpe que o obrigavam, qual dizia de si para si, a dedicar tão pouco tempo ao que vivia tão distante de seus olhos agora.
Os olhos...
Ele sabia que aqueles olhos aos poucos perdiam a habilidade de absorver a luz do dia, e que mesmo assim insistiram-lhe nas cartas, que chegavam já com letras mui distintas da primeira vez, ele adivinhava: ela sobre a cama forrada do verde-água daquelas íris ditava à irmã ou à cunhada, muito solícitas, tudo o que se passava naquela ilha.
Eram sempre as mesmas linhas: a precisão com que descrevia o lilás do poente em Camburi ou o arensar dos cisnes na Ilha do Frade fazia-lhe crer que ela ainda voltaria a ver, que as chances de uma cirurgia bem-sucedida não se haviam esvaído de todo. Ele lhe prometera conseguir o dinheiro, e voltar tão logo pudesse custear o tratamento com a melhor equipe médica da capital paulista.
Ele a amava, e não havia dúvidas de que fosse recíproco. No entanto, sentia um vazio ao notar o tempo a passar sem que desse conta de prestar contas ao que, aos poucos, era só passado, e passara a conformar-se que tudo era pó a escorrer numa ampulheta controladora.
Quando voltou, de limousine blackglasses, pulseira e relógio Ouro 24K, made in Berna, ele vislumbrou uma última vez a colcha de seda verde-água estendida sobre a cama agora tão fria... O espelho d'água que costumava aquecê-la agora estava encoberto pelo peso das pálpebras que não mais se abririam.
O doutor explicou que a doença avançara severamente; que com a negativa unânime de que fosse possível curá-la, padeceu da forma grave do transtorno afetivo conhecido como 'depressão', agravado pela espera de consideráveis sete anos pelo retorno do amado que chorou, pela segunda e última vez na vida, guardando uma rosa rubra a sete palmos do chão.

by bia de barros

Próxima batata: história de ação, envolvendo: tráfico de drogas, amor doentio e investigações perigosas no morro do Rio.

10 comentários:

bia de barros disse...

Ok, a próxima batata tá quente demais, podem requentá-la, se quiserem. ;)

D. disse...

chorei.



e adorei a próxima batata!
quem será que vai escrever hein hein hein?

Thiara disse...

Adorei Bia.

Aline Dias disse...

eu não gostei da próxima bATata

bia de barros disse...

então escreverá sobre the next potato quem dela mais gostar.

darsh, vc tem 33%, quase 50% de chance de ser a premiada, chérie.

;*

darsh. disse...

oh my

god

T disse...

só de quem é o blogger q comenta aqui? omg
divulguem o blogger é muito bom! :DD
beijo
e adorei o texto
pra variar *:

bia de barros disse...

em nome do batata, obrigada, florzinha! *;

Lari Bernardi disse...

amei o texto...
tbm chorei... quase, né...

Vocês continuam arrasandooo...

;*

www.manufaturanova.blogspot.com disse...

Oi, Aline!! Obrigada pela visita no manufatura e seja sempre muito bem-vinda! Como você têm váaarios blog, resolvi visitar todos. Deste gostei bastante e retornarei mais vezes! trocar idéias, ampliar nossa concepção de mundo é sempre muito válido!!=D E eu gostei do texto... agora vou visitar outro blog seu.=]